O Rugaru e os casos de Charles Domery e Tarrare

|
Se você já assistiu Supernatural, com certeza vai se lembrar de um episódio da quarta temporada em que os irmãos Sam e Dean se deparam com um Rugaru(ou Rougarou), uma espécime de criatura com fome insaciável por carne humana. Ao contrário do que possa parecer, o Rugaru não é uma criação cinematográfica, ele possui diversas lendas à seu respeito e por alguns é tido como algo real!

Como acabei de citar, o Rugaru possui diversas lendas, embora todas as variações parecem rastreá-lo de volta à França. Algumas fontes afirmam que o mito se originou na França medieval, quando a crença em lobisomens teria sido muito mais prevalente.
As histórias acerca do Rugaru em muito se confundem e até se mesclam com as do Lobisomem, uma vez que o próprio termo "Rougarou" tem origem no termo francês "Loupgarou" que significa Lobisomem (loup = lobo, garoul = homem que pode se transformar em lobo). Inclusive a sua aparência(o Rugaru é descrito como uma criatura meio homem, meio lobo) faz muitos cogitarem que esse termo seja apenas a versão francesa do Lobisomem.
O Rugaru possui um folclore bastante forte no estado da Louisiana, nos Estados Unidos, em grande parte por causa da influência dos imigrantes franceses/canadenses. Ali, a lenda do Rugaru se tornou algo muito comum, e a maioria dos nativos do local estão familiarizados com pelo menos o nome Rugaru que inclusive é  tema de muitas lendas dos nativos norte-americanos como os Ojíbuas, além de ser usado como uma espécie de bicho papão para por medo nas crianças.

Existem diversas vertentes que explicam a origem do Rugaru, que vão desde Maldição imposta por bruxa até desordem genética. Uma delas afirma que o Rugaru seria um homem que passaria 101 dias sob efeito de uma maldição, onde essa pessoa acabaria assumindo a forma de uma criatura metade homem e metade lobo. Durante esse período o Rugaru caçaria qualquer pessoa que atravessasse o seu caminho. Passados os 101 dias a criatura voltaria a assumir a forma humana, porém a maldição seria passada para outra pessoa. Certas versões contam que ele consegue levar sua vítima ao óbito apenas olhando em seu olho(um tanto quanto exagerada essa).

Uma história no The Nicholls Worth, um jornal da faculdade local de Lockport, intitulado "Rugaru continua como uma figura forte no folclore Cajun", conta o relato de uma mulher sobre uma experiência que teve em sua juventude. Ela diz que um menino estava sendo seguido por um cachorro quando ele decidiu cortá-lo com sua a navalha de bolso. O menino viu o cão se transformar em um homem e depois correu para casa para contar à sua família. De acordo com a mulher, 
No dia seguinte um médico proeminente apareceu na cidade com um corte profundo no braço direito. Lembro-me quando o médico se matou com um tiro, aqui em Lockport. Um ano depois, o menino também se matou e deixou uma carta para que sua família entregasse ao xerife. Mesmo hoje, a família se recusa a deixar que alguém a veja.

O Rugaru também esteve vinculado à história do Deridder Roadkill. Uma mulher chamada Barbara Mullins descobriu uma carcaça supostamente não-identificável, na beira da Highway 12 da Louisiana - EUA em 1996.

 Reprodução/Cryptopia

  Reprodução/Cryptopia

  Reprodução/Cryptopia

Reprodução/Cryptopia

Em 2000, um homem chamado Roy Young começou a investigar as imagens. Ele realizou pesquisas intensas e concluiu que o animal visto nessas fotos seria o temido Rugaru. Outros alegaram ser o Chupacabra ou o Monstro do pântano de Honey Island. Já o Departamento da Vida Selvagem e Pesca da Louisiana afirmou se tratar apenas de uma carcaça de um cachorro, conclusão a qual também tirou apenas examinando as fotos...
Seja como for, devido à localização em que foi encontrada a carcaça e o aspecto incomum, faz com que muitos ainda acreditem que mesmo que não seja um Rugaru, poderia muito bem tratar-se de algum criptídeo.

As Origens

Rastreando as origens do Rugaru, chegamos à uma interessante versão disseminada no século XVI(que é claro, procede da época dos Acadianos, milhares de anos antes), que pinta o Rugaru como sendo algo semelhante a uma desordem genética hereditária, ao invés da maldição que uma miríade de outras versões do mito retratam. Nesta versão, o Rugaru viveria a vida como uma pessoa normal até ocorrer algum evento que desencadeasse sua condição. Seu corpo passaria então por uma transformação e desenvolveria uma fome insaciável. Além da fome incontrolável, o indivíduo afetado não ganharia peso apesar da grande quantidade de alimento ingerido e sofreria de intensa sudorese. Sua completa transformação em forma de Rugaru seria completada uma vez que o indivíduo desse a primeira mordida em carne humana, caso contrário a pessoa continuaria vivendo com aparência humana.
Essa versão vai de encontro com uma que é contada nos Estados Unidos, que inclusive foi usada na série Supernatural. Seja qual for a origem do Rugaru, maldição ou condição hereditária, uma coisa é certa: A criatura possui uma fome insaciável que culmina em apenas uma coisa: O indivíduo tentará devorar carne humana. Isso é claro, supondo que seja algo real.
Aliás, ai vai uma informação um tanto quanto relevante(vai que você topa com um, não é?): O único modo de eliminar o Rugaru é queimando-o, nenhuma outra arma funciona. Então, fogo nele!

Reprodução/Supernatural - The CW Networks

Agora se você pensa que os Rugarus ficam relegados apenas à esfera das lendas, pense duas vezes, pois existem casos reais e documentados que farão você pensar pelo menos na possibilidade de uma condição genética bizarra que induziria a pessoa à essa condição macabra:


Conheça o caso de Charles Domery

Charles Domery (também conhecido como Charles Domerz) nasceu na cidade de Benche, Polônia, em 1778. A partir dos 13 anos, Domery começou a apresentar um apetite incomum.Tinha oito irmãos, todos com o mesmo problema. Em suas declarações, mencionou que seu pai costumava comer exageradamente e, geralmente, carne mal cozida, mas era muito jovem para se lembrar da quantidade. A única doença de que Domery possuía ciência de ter afligido sua família foi um surto de varíola quando ele era jovem, do qual todos sobreviveram.
Apesar de sua dieta pouco usual e de seu comportamento na presença de comida, os médicos não constataram nada de anormal em seu organismo. Charles que se tornou soldado, possuía alta estatura(1,91m), cabelos longos e castanhos, olhos cinzentos e pele lisa. Ele não mostrava possuir qualquer problema mental e, embora fosse analfabeto, seus companheiros de tripulação e os médicos da prisão o classificaram como de inteligência normal. Ainda que ingerisse grandes quantidades de alimentos, ele vomitava apenas quando comia carne assada ou cozida. Sua pulsação era estável, de 84 batimentos por minuto, sua temperatura corporal era constante, seus músculos mostravam uma formação regular, apesar de serem mais fracos que o normal, embora, quando estava no exército, andasse diariamente cerca de 42 quilômetros sem mostrar sinais de fraqueza ou mal-estar.
Outra observação médica foi seu sono: depois de ir para a cama, normalmente por volta das 20 horas, começava a suar em profusão. Após uma ou duas horas sem dormir e suando, ele caía no sono e despertava por volta de 1 hora, extremamente faminto, independentemente do que tivesse comido antes de ir para a cama. Nessa ocasião, alimentava-se exageradamente de qualquer alimento disponível ou, se nada houvesse para comer, fumava tabaco. Por volta das 2 horas, voltava a adormecer e despertava às 5 ou 6 horas suando bastante; assim que ele se levantava, a sudorese cessava, recomeçando quando ele comia.
Em um ano, Charles Domery devorou 174 gatos... vivos ou mortos. 

Serviço militar

Domery alistou-se no exército prussiano aos 13 anos e fez parte das tropas que cercaram Thionville, durante a guerra da Primeira Coligação. O exército prussiano sofria com racionamento de comida, o que, para o soldado, era inaceitável, de modo que entrou na cidade e se entregou ao comandante francês, que o recompensou com um grande melão. Domery o devorou imediatamente, inclusive a casca.Ele então ganhou do general francês uma grande variedade de outros alimentos, que ele prontamente devorou.
O polonês então se juntou ao exército revolucionário francês, assustando os demais soldados com seu apetite insaciável. Apesar de receber o dobro das porções oferecidas aos outros soldados e de usar seus pagamentos para comprar comida adicional sempre que possível, o jovem ainda sentia fome. Enquanto estava baseado em um acampamento do exército perto de Paris, durante um ano devorou 174 gatos e ingeriu diariamente 1,8 a 2,3 kg de grama quando não tinha mais nada para comer.
Preferia carne crua à cozida e seu "prato preferido" era fígado cru de boi; no entanto, comia qualquer coisa que lhe dessem. Enquanto estava em serviço a bordo da fragata francesa Hoche, um tiro de canhão amputou a perna de um marinheiro. Domery agarrou o membro amputado e começou a comê-lo, até que outro membro da tripulação tomou-lhe a perna e lançou-a ao mar. À partir desse momento o comportamento alimentar de Domery começou a piorar.

Captura

Em outubro de 1798, uma esquadra da Marinha Real Britânica, liderada por John Borlase Warren, capturou a fragata Hoche na costa da Irlanda. Os tripulantes foram detidos e levados a um campo de prisioneiros, o Borough Gaol, que se localizava próximo a Liverpool. Os guardas britânicos se surpreenderam com o apetite de Domery e concordaram em lhe dar o dobro do que era fornecido aos demais presos; isto, porém, era insuficiente para saciar sua fome, com o que a quantidade de alimento foi sendo aumentada até chegar a ser equivalente à ração de dez homens por dia. Naquele tempo, as rações eram pagas pela nação em cujo exército os prisioneiros tinham servido. A ração padrão de um soldado francês consistia em 740 gramas de pão, 230 gramas de legumes, 57 gramas de manteiga ou 170 gramas de queijo.
Domery permaneceu faminto e há registro de que se alimentou de um gato que pertencia ao campo de prisioneiros e de pelo menos 20 ratos que entraram em sua cela. Também tomava os medicamentos dos prisioneiros que se recusavam a ingeri-los, sem aparentemente sofrer efeitos decorrentes disso e chegou a comer as velas de onde estava aprisionado. Além disso, quando acabava a cerveja, optava por tomar uma grande quantidade de água junto com a comida.

Experimentos

O comandante da prisão comentou sobre o apetite insaciável de Domery para o The Commissioners for taking Care of Sick and Wounded Seamen and for the Care and Treatment of Prisoners of War, organismo responsável pelos serviços médicos da Armada Real e por zelar pelo bem-estar dos prisioneiros de guerra. O doutor J. Johnston, membro da instituição, junto com o doutor Cochrane, integrante do Colégio Real de Médicos de Edimburgo, chegaram à uma conclusão óbvia de posse da informação: Realizar experimentos para avaliar a capacidade de alimentação de Domery, assim como sua tolerância para comer coisas incomuns!
Às 4 horas da manhã de 17 de setembro de 1799, despertaram o polonês e lhe deram 1,8 quilograma de carne crua de vaca, a qual foi ingerida sem hesitação. Às 9 horas e 30 minutos, forneceram-lhe 2,3 quilogramas de carne crua, doze velas de sebo e uma garrafa de porter(uma cerveja), os quais devorou inteiramente. Quase quatro horas depois, às treze horas, Domery comeu outra porção de 2,26 quilogramas de carne crua, 436 gramas de velas e três garrafas grandes de porter. No decorrer dos testes, não vomitou, urinou ou defecou, sua pulsação permaneceu estável e não apresentou mudança de temperatura corporal. Após voltar para o alojamento às 16 horas e 15 minutos, uma vez finalizado o experimento, foi descrito como "particularmente animado"; dançou, fumou seu cachimbo e bebeu outra garrafa de porter.
A avidez com que devora a carne, quando seu estômago não está empanturrado, se assemelha à voracidade de um lobo faminto devorando sua presa. Quando sua garganta está seca pelo exercício contínuo, ele arranca sebo da vela com seus dentes, o que faz em três dentadas, e envolvendo o pavio como uma bola — com corda e tudo— engolindo de uma só vez. Se não há outra opção, é capaz de comer grandes quantidades de batatas ou nabos crus. Porém, por sua escolha, nunca provaria pães ou vegetais.
A causa do apetite de Domery continua uma incógnita para a ciência convencional. Apesar de existirem outros casos documentados de comportamentos similares naquela época, somente o soldado francês Tarrare (que irei relatar à seguir) foi autopsiado.

Não existem informações sobre o que aconteceu com Domery após os experimentos médicos, assim como com os demais prisioneiros do Hoche após sua libertação, nem se sabe se o soldado retornou à França, à Polônia ou se continuou em Liverpool. Seu caso voltou a ser noticiado em 1852, quando Charles Dickens escreveu sobre Domery: "Agora, na minha opinião, um homem como este, jantando em público no palco do Drury Lane, atrairia mais que um ator de tragédias, que mastiga palavras sem substância em lugar de um bife saudável."

Conheça agora o caso do soldado francês apenas conhecido como "Tarrare"que foi um pouco mais longe na escala da bizarrice.

O Caso Tarrare

Tarrare nasceu em uma região rural da França, próximo à Lyon, por volta de 1772, sua data de
nascimento não é registrada e não se sabe se Tarrare é seu verdadeiro nome ou apelido — a frase em francês "bom-bom tarrare!" é uma expressão comum utilizada para descrever explosões.
Quando criança, Tarrare já possuía um enorme apetite, e já na adolescência, poderia comer um quarto de boi, pesando o mesmo que seu peso, em um único dia. Nesta época, seus pais não tinham condições de sustentá-lo, assim, o forçaram a sair de casa. Por alguns anos, após viajar o país acompanhado de um bando de ladrões e prostitutas, começou a roubar para alimentar-se. Em seguida apresentava seu "freak show" nas ruas. Suas habilidades chamavam a atenção das pessoas, que assistiam a ele nas ruas, comendo rolhas, pedras, animais vivos e engolindo um cesta cheia de maçãs, uma após a outra. Comia vorazmente, tendo uma particular predileção por carne de cobras.
Em 1788, Tarrare mudou-se para Paris, trabalhando como artista de rua. Sendo bem sucedido na maioria das vezes, em uma singular ocasião, sofreu de uma severa obstrução intestinal, quando alguns espectadores o levaram para o hospital Hôtel-Dieu, onde foi tratado com fortes laxantes. Ainda no hospital, após estar recuperado, Tarrare ofereceu demonstrar suas habilidades comendo o relógio do cirurgião M. Giraud o qual não ficou impressionado e disse que caso o fizesse, ele o abriria para recuperar seus bens.


Aparência e comportamento

Apesar da dieta incomum, Tarrare era magro e de estrutura média; aos 17 anos, pesava apenas 45kg. Ele foi descrito como tendo cabelos claros excepcionalmente finos, e uma boca anormalmente grande em que os dentes eram muito manchados e os lábios quase invisíveis. Quando não comia, sua pele ficava tão solta que ele poderia puxá-la do abdômen e evolvê-la ao redor de sua cintura. E quando cheio, seu abdômen distendia-se como um “enorme balão”. A pele de suas bochechas era enrugada e caída e quando esticada, ele poderia segurar uma dúzia de ovos ou maçãs em sua boca. Seu corpo era quente ao toque e ele suava muito e constantemente(assim como Charles Domery), sofrendo de forte odor corporal. Era descrito como mau-cheiroso “a ponto de não ser suportado sem uma distância de vinte passos”. Tal cheiro era ainda mais notado após as refeições e mesmo quando se banhava ainda ficava o seu odor, quando seus olhos e bochechas tomavam coloração avermelhada e um vapor visível surgia de seu corpo, ele se tornava letárgico e durante esse momento ele arrotava sonoramente e suas mandíbulas continuavam fazendo movimentos de deglutição. Sofria de diarreia crônica a qual é descrita como “fétida além de qualquer concepção”. Apesar da enorme ingestão de alimentos, não apresentava vômitos ou ganho de peso e não apresentava sinais de doenças mentais ou comportamentos incomuns a não ser um temperamento apático com uma “completa falta de força e ideias”.
Logo após este episódio, em 1792, a Guerra da Primeira Coalizão estourou. As monarquias da Europa estavam tentando esmagar a jovem República Francesa pela execução de Luís XVI. Tarrare, como muitos outros jovens, se juntou ao exército revolucionário francês para lutar por seu país. No entanto, as rações dadas aos soldados não foram suficientes para satisfazer o seu apetite. Logo ele estava realizando tarefas para outros soldados em troca de uma parte dos suas rações. Mais tarde, iria vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Sofrendo de exaustão extrema, ele foi internado no hospital militar Soultz-Haut-Rhin. Eles quadruplicaram suas rações, mas isso ainda não o satisfazia. Tarrare passou a roubar ração de outros pacientes, invadiu o escritório de um dos médicos e comeu todos os cataplasmas. Os cirurgiões do local não conseguiam entender de onde vinha essa fome insaciável de Tarrare, e decidiram —é claro— conduzir experimentos, a serem dirigidos pelo Dr. Courville e Baron Percy (cirurgião-chefe do hospital).

O primeiro teste a que Tarrare foi submetido foi ser alimentado com uma refeição que alimentaria 15 pessoas. Além dessa refeição gigante, ele ainda comeu duas grandes tortas de carne, placas de gordura e sal, e quatro litros de leite em uma sessão, antes de adormecer imediatamente.
Os experimentos tomaram um rumo mais violento quando ele foi presenteado com animais vivos. Em um ponto ele se alimentou com um gato vivo. Ele rasgou o abdômen do gato com os dentes e bebeu o sangue do animal antes de comer o gato inteiro(não incluindo os ossos). Logo depois, Tarrare vomitou o pelo e a pele do felino. Após esta experiência, foram oferecidos à ele uma grande variedade de animais vivos, incluindo cobras (seu favorito), lagartos, enguias, e alguns filhotes.
Eventualmente, foi decidido que o apetite de Tarrare poderia ter aplicações militares para o transporte de mensagens através das linhas inimigas. Tarrare foi presenteado com uma caixa de madeira com uma mensagem dentro. Ele consumiu e excretou o objeto, e a mensagem ainda estava legível. Ele foi convidado a repetir este feito na frente dos generais reunidos do Exército do Reno, como recompensa, lhe foi dado 14 kg de carne — pulmões de touros — que ele comeu na frente dos generais.
Em sua primeira missão, ele foi enviado para entregar uma mensagem a um oficial francês mantido em cativeiro em Neustadt. Vestido como um camponês alemão, Tarrare foi atrás das linhas inimigas. No entanto, ninguém tinha pensado no fato de que Tarrare não sabia falar bulhufas de alemão. O resultado foi que os prussianos rapidamente descobriram que esse bizarro camponês era um espião francês. Tarrare foi capturado em sua primeira missão, e a mensagem que ele "carregara" não foi descoberta. Ele fora sentenciado à morrer na forca, mas por não ser considerado "perigoso", acabou sendo liberado.

Após este episódio Tarrare voltou para o hospital militar e implorou à Baron Percy para ajudá-lo a curar o seu apetite. Percy colocou o homem em um tratamento à base de láudano, que falhou. Percy também iria tentar pílulas de tabaco, vinagre de vinho, e grandes quantidades de ovos quentes. Todos estes falharam miseravelmente em diminuir o apetite monstruoso de Tarrare. Ele constante mente fugia do hospital para procurar miudezas fora de açougues e lutava com cães vadios por pedaços de carne — sintam o nível do elemento. Foi então que Tarrare atingiu um novo patamar de bizarrice quando seu apetite o levou a beber o sangue de pacientes submetidos à sangria. Após isso ele tomou gosto pelo "porcão" e foi pego várias vezes no necrotério do hospital tentando comer os corpos dos defuntos. Depois de um tempo em que Tarrare estava estabelecido no hospital, ocorreu o desaparecimento misterioso de uma criança de 14 meses no local. Tarrare foi considerado suspeito de ter devorado a criança imediatamente —o que venhamos e convenhamos estava meio na cara o culpado, mas por não haver provas concretas, não foi preso—, e Percy foi incapaz ou já estava com o saco cheio de defendê-lo e Tarrare foi expulso do hospital.

Não se sabe o que aconteceu com Tarrare nesse período, mas quatro anos depois, em 1798, Percy foi convocado para se apresentar no hospital de Versailles. Tarrare estava gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal devido a um garfo de ouro que ele havia engolido dois anos antes de se apresentar.
Percy lhe diagnosticou com tuberculose. Tarrare morreu um mês após esta reunião, de diarreia exsudativa. Seu corpo foi dissecado após sua morte. Sua garganta era anormalmente grande, de modo que quando sua mandíbula estivesse aberta, os cirurgiões podiam ver todo o caminho até seu estômago. Seu fígado e vesícula biliar, também eram anormalmente grandes, e todo o seu corpo estava preenchido com pus. Seu estômago era imenso (preenchendo a maior parte de sua cavidade abdominal) e coberto de úlceras. A causa do seu apetite ainda é desconhecida, mas foi especulado que foi o resultado de uma amígdala danificada (uma parte do cérebro) que causou polifagia (fome excessiva).
As causas do comportamento de Tarrare ainda são desconhecidas. Mesmo havendo outros casos similares ao de Tarrare no mesmo período, nenhum dos demais indivíduos foi submetido a autópsias, e não há registros de casos recentes como o de Tarrare. Não casos documentados ao menos.

Existem apenas especulações à respeito desses casos. O hipertiroidismo pode causar um aumento de apetite e perda rápida de peso, bem como danos na amígdala pode causar a polifagia em animais. No entanto o que chama atenção para esses casos é a voracidade desenfreada que os levou a praticar atos extremos de canibalismo.
Se existe algo como o Rugaru realmente, esses dois com certeza entram para a lista.


Fonte(s)  Quartz, Exemplore, Wikipedia [1], [2], The London Medical and  Physical Journal
Imagem de capa  Reprodução/Supernatural - The CW Networks