Creepypasta: O Barulhento

O corpo humano possui uma resposta natural ao medo. É inerente a nós, isso nos ajuda a sobreviver. É parte de quem somos. Se você estiver, digamos, deitado em sua cama uma noite e ouvir um som desconhecido, a adrenalina começará a bombear. E você tem duas opções: lutar ou fugir. Lutar significaria se opor ao medo, enfrentá-lo de frente, investigar e ir contra ele. A segunda opção seria fugir, sair o mais rápido possível, longe de qualquer possível dano.

Não é como se isso fosse uma surpresa para qualquer um de vocês. Na verdade, os produtores de Hollywood sabem disso há anos. Desenvolva o suspense, faça o protagonista dobrar a esquina e depois faça algo pular nele. E você, mesmo perfeitamente seguro(a) em uma sala com ar-condicionado, com um balde cheio de pipoca, doces e capitalismo, pula de seu assento. É a maneira natural das coisas.

No entanto, os seres humanos são um pouco diferentes dos animais neste aspecto, porque criamos outra resposta. Nós nos domesticamos, porque muitas vezes, escolhemos uma terceira opção — permanecer dócil. Se ouvimos um barulho, nos viramos em nossas camas, dizemos a nós mesmos que era a casa se assentando, o detector de fumaça ficou sem bateria, que não é nada com o que se preocupar.

À luz da minha mais nova pesquisa, permita-me sugerir que você continue fazendo exatamente isso.

Alberta, Canadá. Cold Lake. O nome da cidade correspondia ao seu próprio ambiente (lagoa fria). A cada inspiração, era como se eu estivesse sugando uma pedra de gelo, e as pessoas só complementavam essa aura gélida da cidade. Eles eram mais do que qualquer outra coisa, pessoas antipáticas, mas eu não havia vindo para a cidade pelas pessoas.

Eu vim por causa de um monstro.

Toda a cidade começou a experimentar um estranho fenômeno. No meio da noite, algum membro da família ouviria um barulho — uma torneira gotejando ou algum sinal sonoro eletrônico — e iria se levantar para investigar. Pais, mães, filhos, saindo de suas camas. Saindo de suas camas para nunca mais retornar.

Ninguém possuía mais informações do que isso. Um barulho foi ouvido, alguém se levantou, e então eles simplesmente desaparecem. Comecei a questionar aqueles que estavam envolvidos nisso, mas nenhum deles tinha mais a dizer. Alguns falaram sobre como o ruído já estava ocorrendo por vários dias, enquanto outros diziam que era a primeira noite em que ouviram algo do tipo.

"Mas você começou a ouvir o barulho desde quando?" Eu perguntava a eles. E eles me olhavam, estupefatos, tentando pensar à respeito de um detalhe tão insignificante como esse antes de responder.

"Eu ... eu não sei. Suponho que não. Eu não sei."

Na minha experiência, porém, são os detalhes insignificantes que fazem toda a diferença.

Uma história insignificante só confirmou minhas suspeitas. Havia um homem chamado Ryan que trabalhava na segurança de um complexo de apartamentos na cidade. O complexo não era diferente de muitos outros que exitem por todo o lugar, complexos baratos com fechaduras baratas e pisos de linóleo na cozinha. Eram separados em blocos, com cada bloco tendo três andares e quatro apartamentos em cada andar. Ele havia recebido várias queixas de ruídos provenientes de um bloco de apartamentos na mesma área. Todos alegaram ouvir um som, repetindo incessantemente, noite após noite.

"E você já investigou?", perguntei. Ele se deslocou em seu assento.

"Na verdade, não até a noite passada. Eu não costumo lidar com problemas, a menos que eles sejam prioritários."

Um guarda de segurança preguiçoso. Quão original.

"Mas a noite passada foi uma prioridade. Uma das nossas moradoras ligou e estava furiosa que ainda estava ouvindo o barulho. Ela podia dormir com o barulho, ela disse, mas ela estava se levantando para o trabalho, e aquele ruído poderia acordar seus filhos. Ela exigiu que eu fosse lá imediatamente e consertasse o que quer que fosse."

"O meu turno estava prestes a acabar, mas eu concordei, apenas para se livrar das reclamações dessa senhora. Cheguei ao apartamento dela enquanto ela estava saindo. Ela era uma mulher particularmente grande e insistiu que consertasse aquilo imediatamente, de uma maneira não muito educada, antes de ir para o carro. Quando ela se afastou, fiquei um pouco para tentar fazer justamente isso."

"Definitivamente havia um som, embora ela estivesse exagerando sobre o volume. Era leve, à distância, eu não tinha certeza de onde. Então eu tentei segui-lo, ouvindo o som e caminhando em direção à ele." Ryan esticou o pescoço, como se para demonstrar como ele perseguia o som.

"Que tipo de barulho era?", Perguntei.

"É um tipo de som estridente. Soava como eletrônico, acho que deve ser. Ele repetia o mesmo padrão, de novo e de novo, como se estivesse quebrado. Meu palpite estava em um dos alarmes de incêndio, provavelmente com a bateria acabando ou algo assim. Mas era estranho. Eu trabalho neste edifício há anos, mas nunca ouvi um som como esse antes."

"Eu finalmente comecei a subir as escadas, porque pensei que deveria vir de lá. Nossos apartamentos superiores geralmente são menos populares, e este bloco ocorreu de estar com quatro que estavam vazios. O som estava mais alto, definitivamente, mas o alarme de incêndio parecia normal. Então eu pus os ouvidos nas portas dos apartamentos vazios. Os dois primeiros não tinham nada, silêncio, talvez o zumbido de uma geladeira. Mas o terceiro ecoava o som de um ruído abafado contra minha orelha na porta. Andei para trás e coloquei minha chave na fechadura." Ele parou por um segundo, e parecia vulnerável em vez de apático, talvez pela primeira vez desde que comecei a conversa. "Agora, eu tenho feito este trabalho há muito tempo. Como eu disse, é um trabalho seguro. Realmente não há muito a se temer nessa cidade. Mas havia algo... estranho sobre isso. Fiquei desconfortável abrindo a porta. Não sei como descrever, e talvez isso seja o melhor que eu possa fazer. Havia apenas algo estranho. Respirei, tentando me acalmar. Mas quando abri a porta, o som desapareceu. Olhei através do apartamento, verifiquei o alarme de incêndio, mas não havia nada, nada fora do comum. Fechei a porta e sai. Enquanto eu estava caminhando de volta pelas escadas, notei que o sol estava nascendo, o que significava que meu turno havia acabado." Ele recostou-se na cadeira. Esse foi o fim da história. Ele não tinha mais nada a dizer.

"Eu poderia talvez te acompanhar em seu turno esta noite?"

"Você quer vir comigo? No turno da madrugada?"

"Eu lhe asseguro que não será um problema para mim."

"Bem", ele parecia desconfortável novamente, mas logo se derreteu em seu estado regular de indiferença, embora possivelmente fingisse desta vez. "Bem, eu acho que não vai realmente fazer diferença de qualquer forma. Além disso, eu gostaria que outra pessoa estivesse lá, pelo menos para me dizer que não sou louco, se eu tiver que verificar novamente."

Nós tivemos que verificar novamente, e também não muito tarde em seu turno. Era por volta das onze quando recebemos um telefonema de um dos moradores do bloco, dizendo que o ruído estava de volta e que ele não conseguia dormir. A ansiedade de Ryan era palpável ao chegar, e o som ouvia-se à distância, mais alto do que ele afirmou ser. Sua descrição do som, porém, era quase perfeita. Eu ouvi ele, soando em um ritmo perfeito."

Iit iit *pausa* iit iit *pausa* iit iit iit *pausa* iit iit *pausa*

Ryan começou a avançar. Segui atrás dele. Ele estava murmurando, tentando tranquilizar-se sobre o que ele estava ouvindo.

"É apenas uma máquina... apenas uma máquina..."

Mas ele estava errado.

Chegamos ao último andar e o som estava mais alto. Muito mais alto. Você poderia dizer que estava bem acima de nós. Ryan me levou à porta correta, e coloquei minha orelha contra ela. Ele estava certo. Havia algo sobre isso, algo que o deixava desconfortável. Enquanto eu ficava ali em silêncio, minha cabeça pressionada contra a madeira fria, o som de minha própria respiração saindo pelo nariz e boca... tudo parecia tão fora do lugar.

Fiquei parado de pé e olhei para Ryan. Ele acenou com a cabeça para mim, depois colocou a chave na fechadura, girando-a lentamente. Ele abriu a porta bem devagar e silenciosamente. Ele a abriu assim como uma pessoa expira. O som, porém, apenas aumentou. Nós dois sabíamos que algo estaria logo atrás da porta. Quando eu olhei através da entrada, eu finalmente encontrei a fonte.

Era um homem, se é que você pode chamar aquilo assim. Sua pele era cinza e descamada, seus cabelos desgrenhados e negros. Seus olhos combinavam com seus cabelos na cor, mas eram grandes, muito grandes e não pareciam humanos. Eles não eram compostos de íris, pupilas e córneas, mas era como se fossem pupilas, que não piscavam e permaneciam e focadas. Todo o seu ser estava focado, olhando para o chão de linóleo com suas roupas esfarrapadas e sapatos de borracha. Concentrado em chutar o chão em ritmo perfeito, de novo e de novo, e o som resultante ecoando contra as paredes.

Iit iit iit *pausa* iit iit *pausa* iit iit iit *pausa* iit iit *pausa*

Parecia ser o único propósito dele, a única deliberação dele. Seu corpo estava rígido, sua cabeça inclinada observando seus pés. Ele repetiu o som, uma e outra vez.

Eu dei um passo à frente, mas Ryan pegou meu braço. Olhei para o seu rosto de desespero, balançando a cabeça violentamente. Mas eu precisava saber. Eu precisava vê-lo mais de perto. Abaixei suavemente o braço, voltei-me para a figura no apartamento e dei outro passo. Meu pé, pegou no chão de má qualidade e produziu um som estridente. De repente, o monstro parou.

Ele piscou, olhando para seus pés confuso, incapaz de compreender o que poderia perturbá-lo em seu dever. Lentamente, sua cabeça se ergueu, olhando para mim. Seu rosto estava ainda pior. Não era como se estivesse em decomposição, mas era... estranho. Seus lábios eram divididos e acinzentados, suas narinas planas se inflamavam, sua expressão quase morta. O monstro olhou para mim, seus olhos negros se concentraram rapidamente. Seu rosto mudou lentamente, primeiro de confusão para raiva, e depois ódio. A escuridão começou a tomar a sala, mas não vinha do nada. Estava estendendo-se à partir dos olhos do monstro, escorrendo dos seu arredores. Vindo em minha direção.

A curiosidade pode ter me agarrado pelo colarinho, mas Ryan agarrou-o mais forte ainda e me tirou da sala. Ele bateu a porta atrás de nós, fechando-a e correu pelos degraus, de volta por onde viemos.

Ryan não voltou para o quarto comigo. Ele se recusou a conversar sobre o que tinha visto, e ignorou quaisquer outras chamadas sobre o barulho. Eu estaria mentindo se eu dissesse que não voltei para a sala. Bem, do lado de fora da sala, de qualquer forma. Anotei o horário em que o monstro começou e parou, tendo em conta o horário das próximas duas noites. Começou quase às dez todas as noites e terminou quando o sol nasceu.

E então, uma noite, ele simplesmente parou.

Ryan ficou mais aliviado do que tudo que aquilo havia desaparecido, mas não entendi. No começo, pensei ter inadvertidamente matado o monstro, matando-o de fome de alguma forma. Mas então ficou mais claro para mim.

Uma das muitas mensagens que Ryan havia ignorado em seu telefone era uma série de chamadas irritadas da mulher original, exigindo novamente que ele fizesse algo sobre o barulho. Chegou ao ponto em que ela ameaçou que, se ele não fizesse nada sobre isso, então ela iria lidar com aquilo por conta própria. Quando eu cheguei à sala naquela noite, estava bem aberto, a porta estava escancarada. Mas estava completamente vazio.

Nenhuma outra reclamação de ruído veio desse bloco de apartamentos.

O Barulhento escolhe lugares ao acaso. Só conhece o seu propósito expresso de fazer barulho, de novo e de novo, noite após noite. Se for perturbado, ele entra em um frenesi, aniquilando qualquer coisa em seu caminho. Mas não só isso, ele segue em frente. Este lugar estava maculado. Encontrou outro lugar para ir, outra casa, outro apartamento.

Sua casa. Seu apartamento.

E assim, vou me repetir. Quando, no meio da noite, você ouvir um som, mesmo que você pense que está familiarizado, eu exorto você a não investigar. Em vez disso, vire-se em sua cama e deixe o Barulhento continuar seu ritual.

Saí de Cold Lake logo depois, para ver quais coisas novas e terríveis eu poderia encontrar.


Fonte(s)  Dr. Margin guide to new monsters
Imagem de capa  nildesperandumx
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Est. 2013

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